O pânico tomou conta da B3 na quarta-feira, 16 de abril de 2026. Investidores que apostavam na expansão do atacarejo viram seus papéis sangrar após a Receita Federal do Brasil lançar uma operação fiscal de proporções inéditas contra o varejo alimentar. O alvo? A forma como gigantes do setor têm usado créditos de PIS e Cofins. O resultado foi imediato e brutal: as ações do Assaí Atacadista despencaram 8,86%, fechando a R$ 9,26, enquanto o Grupo Mateus recuou quase 5%, terminando em R$ 4,60.
Aqui está o problema central: a Receita identificou inconsistências em cerca de 55 mil pedidos de ressarcimento e compensação tributária. Especificamente, 2.959 empresas foram notificadas por terem tomado créditos fiscais em situações onde os tributos sequer haviam sido recolhidos na etapa anterior da cadeia produtiva. Estamos falando de produtos com alíquota zero ou itens já tributados concentradamente a montante, como certas bebidas e produtos de higiene pessoal. O valor total envolvido nessa teia de irregularidades pode chegar a impressionantes R$ 10 bilhões.
O impacto financeiro no atacarejo
Para entender a gravidade, basta olhar para as projeções dos grandes bancos de investimento. Segundo análise detalhada do BTG Pactual e do JPMorgan, o passivo potencial do Assaí varia entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão em valor presente líquido. Isso não é um número pequeno; representa entre 8% e 9% de todo o valor de mercado da companhia, que girava em torno de R$ 12 bilhões no dia da queda.
O BTG Pactual havia estimado anteriormente que o Assaí poderia monetizar cerca de R$ 1,5 bilhão desses créditos. Agora, esse cenário entra em xeque total. Se a Receita confirmar as irregularidades, essas empresas precisarão estornar os valores, gerando um enorme passivo tributário que impactará diretamente o fluxo de caixa nos próximos trimestres. Embora a disputa judicial possa se arrastar por anos – algo comum no sistema tributário brasileiro –, a percepção de risco regulatório mudou overnight.
Contexto de fragilidade econômica
O timing dessa fiscalização é, no mínimo, desfavorável para o setor. As redes de supermercados já enfrentam um cenário delicado. Os resultados do primeiro trimestre de 2026 revelam um consumidor apertado. Famílias de baixa renda, base do modelo de atacarejo, estão reduzindo gastos devido ao alto endividamento e aos juros elevados, mesmo com a inflação dos alimentos mostrando sinais de moderação.
Os números falam por si. No primeiro trimestre de 2026, o Grupo Mateus registrou lucro líquido de R$ 212,9 milhões, uma queda de 21,8% em relação ao mesmo período de 2025. Já o Assaí Atacadista viu seu lucro cair drasticamente 46,7%, encerrando o trimestre com apenas R$ 86 milhões. Vale notar que, sem a contagem dos novos créditos de PIS/Cofins sob investigação, o lucro do Assaí teria sido de R$ 367 milhões. Ou seja, a "saúde" financeira recente dessas empresas estava parcialmente sustentada por esses créditos agora questionados.
Prazo final e autorregularização
A Receita Federal estabeleceu um prazo claro e duro: até 30 de junho de 2026. As 2.959 empresas notificadas devem revisar e regularizar suas informações. O objetivo do órgão é estimular a autorregularização antes de partir para medidas punitivas mais severas, como multas pesadas e bloqueios de contas.
Especialistas alertam que este caso estabelece um precedente perigoso para toda a indústria varejista. Práticas que eram comuns – tentar gerar créditos sobre produtos isentos ou já tributados upstream – agora são vistas como agressivas demais e sem respaldo legal sólido. A Traders Corretora observou que a pressão vendedora nas ações do Assaí foi constante durante o pregão de 16 de abril, indicando que investidores institucionais estão revisando suas teses de compra rapidamente.
Frequently Asked Questions
O que exatamente a Receita Federal encontrou?
A Receita identificou que empresas do varejo estavam tomando créditos de PIS e Cofins em operações onde esses impostos não foram pagos na etapa anterior. Isso ocorre principalmente com produtos que possuem alíquota zero ou que são tributados de forma concentrada pelo fabricante (como algumas bebidas), tornando ilegal a geração de crédito adicional pelo varejista.
Quanto o Assaí Atacadista pode perder com essa ação?
Segundo análises do JPMorgan e BTG Pactual, o impacto potencial varia entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão em valor presente líquido. Esse montante representa aproximadamente 8% a 9% do valor de mercado da empresa no momento da notícia, podendo afetar significativamente seus balanços futuros se os créditos forem estornados.
Qual é o prazo para as empresas se defenderem?
As empresas notificadas têm até 30 de junho de 2026 para revisar e regularizar suas informações junto à Receita Federal. Este período visa permitir a autorregularização, evitando penalidades mais severas. Após essa data, o órgão pode iniciar processos administrativos e judiciais para cobrar os débitos e aplicar multas.
Isso afeta outros setores além do atacarejo?
Sim, embora o foco inicial tenha sido o varejo alimentar grande porte (como Assaí e Grupo Mateus), a metodologia de fiscalização pode ser aplicada a qualquer empresa que utilize créditos tributários de forma similar. O sinal enviado pela Receita é de endurecimento na fiscalização de compensações fiscais em todo o país.
Por que as ações caíram tanto em um único dia?
A queda reflete o choque de reprecificação do risco. Até então, os lucros reportados pelas empresas incluíam benefícios fiscais que agora podem ser revertidos. Com a possibilidade de ter que devolver bilhões em créditos, o valor justo das ações foi recalculado pelos investidores, resultando em vendas massivas e quedas de quase 9% no Assaí e 5% no Grupo Mateus.